A vida na Índia sob o olhar de uma brasileira.

sábado, 23 de junho de 2012

Welcome to Walmart!

Interessante que a Aline me perguntou como é o mercado por aqui. Primeiro, explico quem é a Aline: ela foi minha colega no curso de pedagogia da USP e é autora do blog http://saopauloparisdakar.over-blog.com/, no qual conta suas experiências de mineira-paulista vivendo na França e fazendo eventuais viagens à África. Pois bem, ela queria saber um pouco mais sobre o supermercado e os produtos aqui na Índia. Interessante foi eu ter ido alguns dias depois às compras me propondo a reparar nas coisas que ela tinha mencionado e acabar constatando que aquele mercado não era muito diferente de alguns em qualquer outro lugar do mundo.

Antes de prosseguir com os detalhes, vale contextualizar: Quando morávamos nos EUA, fazíamos a maior parte das compras no Walmart. Não porque gostássemos de lá. Pelo contrário, era mal frequentado, tinha muitas filas, serviço ruim, mas... os preços eram bons.
Quando voltamos a morar no Brasil, logo descobrimos perto de casa o mercado que oferecia os melhores preços - o Todo Dia. "Coincidentemente" este também era péssimo em serviços. Algumas vezes até desisti de comprar alguma coisa por causa do tamanho das filas. Por essas e outras, não ficamos tão surpresos ao descobrir que o tal mercadinho pertencia à Walmart.
Agora adivinhem o que aconteceu ao chegarmos na Índia: Aqui do outro lado do mundo também frequento um mercado que pertence a nada menos que a gigante Walmart, e leva o nome de Easy Day.

Nos EUA a Walmart já gerou muita polêmica, figurou em documentários, e inclusive há pessoas que se recusam a fazer suas compras lá na tentativa de frear o crescimento da rede que estaria se encaminhando para um possível monopólio.
Apesar de reconhecer esse lado nocivo, devo confessar minha gratidão à Walmart. Graças a ela tenho acesso, aqui na Índia, a produtos que tornam a minha vida aqui um pouco mais próxima do "normal" (leia-se ocidental, com todo o etnocentrismo que a palavra carrega).
É graças à Walmart que posso comprar peixe limpinho congelado numa bandejinha hermeticamente fechada, numa cidade onde a outra opção seria esta:


Peixe fresquinho sendo vendido nas ruas da Índia. Sim, os pontinhos pretos são moscas.
Pois é, vocês hão de convir que nessas circunstâncias é um alívio ter os produtinhos embalados, da nossa conhecida Great Value, e até coisas como a mistura para panquecas americanas e os brownies com os quais ficamos familiarizados desde que moramos nos Estados Unidos.

Eu já comentei aqui num post anterior que temos acesso a uma grande variedade de produtos de marcas internacionais, e isso não se limita apenas ao Easy Day. Pelo contrário, temos visto cada vez mais os esforços das grandes empresas em conquistar o público indiano. Afinal, uma parcela mínima desta população de mais de um bilhão de habitantes já representaria lucros expressivos para os investidores.
Mesmo assim, cada vez mais semelhante às lojas norte-americanas, o Easy Day não deixa de apresentar características locais. Por exemplo, o hábito desagradável de revistar a nossa bolsa antes de entrarmos. A propósito, não foi nesse, mas num outro mercado que eles chegaram ao absurdo de começar a pegar cada objeto pessoal que eu tinha na minha bolsa e fazer uma marca com pincel atômico, mesmo que nem vendessem o produto lá. Além disso, a funcionária não entendia inglês pra que eu pudesse ao menos argumentar ou praguejar. Resultado: cliente frustrada ainda antes de começar as compras.

Pois bem, após delongas e reflexões, respondo às perguntas da minha colega blogueira e quase-pedagoga:
1-Tem "produtos piratas" (imitações, às vezes grosseiras, das grandes marcas)?
R.: Olha, não vi essas imitações. Apenas adaptações. Por exemplo: Cup Noodles de masala, ou qualquer coisa masala.

2-E "mini-produtos", como "pacote" com 1 biscoito ou sachezinhos de poucos gramas de sabão em pó?
R.: Sim. Isso é uma coisa que não vi nos mercados grandes, mas basta ir a um mercadinho de esquina, desses abarrotados de coisas, ou reparar em qualquer banquinha na rua que lá estão elas:


Sachês de xampu vendidos na Índia por 4 rúpias.
Bem, pessoal, espero que vocês (e a Aline) tenham gostado deste post ;)
Até a próxima!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Mehtab Bagh




Tem alguma coisa estranha nesta foto?

Os bons observadores devem ter notado que o jardim está diferente daquela outra foto que postei aqui há alguns meses e de outras que possam ter visto. Então o que houve? Mudaram o jardim? Ou não seria este o verdadeiro Taj Mahal e sim uma réplica dele?
Nada disso, meus caros. Este é sim o original, e seu jardim não foi remodelado. Este é na verdade o Taj visto de um outro ângulo.
Ué, Mari! Mas parece ser exatamente igual àquela foto de frente que você mostrou.
Pois é isso mesmo. A construção principal tem todos os lados iguais, e esse que aparece na foto é o lado de trás.

Apesar de as opções de passeios estarem se esgotando pra nós aqui em Agra, dei uma pesquisadinha mais a fundo e descobri a existência desse jardim, o Mehtab Bagh, de onde se tem uma vista privilegiada do Taj Mahal. Além da vista, a vasta área arborizada onde se pode caminhar pelo gramado proporciona uma paz que não se encontra nas ruas.
Ainda assim com um pouco mais de tranquilidade, algumas coisas não nos deixam esquecer de que estamos na Índia. Por exemplo, ao chegarmos e depois ao sairmos, umas cinco ou seis pessoas entre homens e meninos nos abordam seja pra vender cartões postais, bijuterias ou pra pedir dinheiro numa insistência perturbadora que é quase uma invasão que nos tira o direito de ir e vir. E é perturbadora não só no sentido de que nos tira a paz e nos desvia de nosso próprio pensamento e rumo, mas porque inquieta o ser que está ali pretensamente hermético, que deseja ver o Taj Mahal sem ver a Índia; e depois que é forçado a ver, fica ali, ineficaz, mesmo que divida todo o dinheiro que carrega nos seus bolsos, e sai deixando um rastro meio amargo e meio doce.

Filosofias a parte, fiquei com esse gosto também com relação ao seguinte episódio: Paramos pra olhar esta pequena vila que aparece ao fundo na foto abaixo. Ela é separada do jardim apenas por uma baixa cerca.

Assim que nos aproximamos esses dois meninos vieram correndo, dizendo: Foto, foto... Resolvi entrar na brincadeira e posar pra foto com eles, que imediatamente depois do clique começaram a dizer: Foto, 10 rupees... hehe Infelizmente não tínhamos dinheiro trocado e saímos andando. Eles nos seguiram e insistiram por um tempo até o André amolecer o coração e tirar uma nota de 100 rúpias da carteira. O menino mais velho prontamente garantiu que iria dividir o dinheiro com o outro e já estava quase saltando em cima da nota de ansiedade. Quando pôde, porém, agarrou a nota com toda a força e saiu em disparada, deixando o mais novo se jogar no chão aos prantos de frustração. É, uma malandragem de criança que me deixou pensativa e chateada. Fiquei tentando vislumbrar o futuro desses dois seres humanos, que são iguais a mim e a você, só que com oportunidades diferentes.

Bem, como não podia faltar, mais um momento "sinta-se uma celebridade na Índia"... hehe Olhem essa fofura que veio me entregar uma flor:



Por livre e espontânea pressão do pai dele, me estendeu a mão pra posar pra foto. Reparem no bonezinho pro lado, zíper aberto e cadarço arrastando no chão... Muito fofo!
Depois me pediram pra tirar uma foto com os dois filhos e outra com a mulher. Honestamente, não entendo o que eles veem em mim. Num lugar onde as branquelas europeias chamam até a nossa atenção, eu iria imaginar que uma brazuca meio "índia" passaria despercebida.

Aliás, não sei quais eram as circunstâncias que trouxeram aquelas branquelas à Índia, mas vale a dica de que essa não é a melhor época do ano pra fazer turismo a menos que você seja um camelo ou algo assim. Nós não nos atrevemos a sair antes das 17h e ainda assim a sede e o desconforto do clima nos fizeram voltar logo para casa. Entre os meses de fevereiro e abril foi a época mais agradável pra passear.

Bem, como quase tudo na Índia, o Mehtab Bagh não é impecável, mas serve como uma boa opção pra quem gosta de natureza e, claro, apreciaria admirar de camarote o Taj Mahal do outro lado do rio Yamuna.


 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Gujia

Namaste, amigos! As temperaturas baixaram por aqui desde a última postagem e está fresquinho como uns 35 graus. E foi nesse clima ameno que comemoramos ontem o aniversário do nosso colega Amauri, que pagou pizza e refrigerante pra toda a turma. O toque indiano ficou por conta da sobremesa: o gujia (pronuncia-se como "gudiá").

Gujia, iguaria típica indiana.
A massa me lembra um pouco a da nossa empada, só que esta é doce. Me parece que depois de pronta ela é mergulhada numa calda de açúcar. O recheio é feito de leite e açúcar que são levados ao fogo até engrossar. Pra completar, algumas amêndoas em pedaços.Quanto às coisinhas verdes que aparecem na foto, não perguntei o que eram.
Numa escala de 0 a 10, daria uma nota 5 para o gujia. Não é ruim, mas talvez parecesse mais gostoso se não tivesse provado depois de já ter comido dois pedaços de pizza.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

FAZEM 48 graus


Eu poderia afirmar que a frase acima contém um erro gramatical. Já posso até imaginar professor Pascoale dizendo “O correto seria ‘faz 48 graus... os graus não fazem nada.’’’ Ah, é? Não fazem nada? Talvez porque você nunca tenha morado na Índia.
O erro foi proposital e justamente pra mostrar que os graus aqui fazem muitas coisas: Eles fazem por exemplo com que os cães mergulhem quase todo o corpinho na água e fiquem sentados ali pra amenizar o calor, mesmo que essa água seja de esgoto. L Já os que não têm nem uma poça por perto, afinal a água é escassa, cavam um buraco na terra pra chegar a uma superfície menos quente e dormem quase o tempo todo. Os muitos graus fazem com que as pessoas ponham suas “camas-esteiras” na rua e durmam ali com as estrelas como teto. Alguns inclusive têm um pequeno comércio no mesmo cubículo que lhes serve de residência, e ali esperam deitados pelos clientes.
Os graus que tornam impossível conservar algumas frutas e vegetais são os mesmos que têm feito mangas deliciosas (bem, não sei se eles fazem, mas ao menos não impedem o cultivo em abundância dessa fruta). E é impressionante também como não impedem que os que trabalham ao ar livre continuem suas atividades, sob temperaturas que parecem simplesmente intoleráveis pra nós que temos o conforto do ar condicionado e quase desmaiamos quando damos uma saidinha. Ainda assim é muito raro ver alguém usando bermuda. Pelo contrário, muitos cobrem o corpo com tecidos, e algumas mulheres usam também umas meias e luvinhas meio ridículas de cor bege pra se proteger do sol; seria por que têm consciência dos perigos que o sol pode causar a pele? Na verdade tudo indica que não, que fazem isso para não se bronzear. Cheguei a essa conclusão e você também chegaria se visse a quantidade de produtos para clarear a pele que se vende por aqui. Esses produtos figuram massivamente nas propagandas de televisão, mostrando as grandes vantagens sociais de se ter uma pele alva, mesmo que as características naturais do típico cidadão indiano sejam o oposto dessas e o clima do país não as favoreça nem um pouco.
A paisagem desértica de Agra, sob temperatura média de 45 graus.

Talvez alguns de vocês possam até estar se perguntando se esses produtos clareiam mesmo a pele, ainda mais se eu disser que são vendidos em qualquer supermercado por talvez um equivalente a $10 reais. Me limito apenas a dizer que um dia vi uma propaganda na tv de um shake para aumentar a estatura. Daí você tira suas próprias conclusões.
Ok, amigos, até a próxima e... vão pela sombra!
Ah! E se por acaso a produção de postagens neste blog diminuir, já sabem: é o calor! ;)