A vida na Índia sob o olhar de uma brasileira.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A suástica

Eu poderia começar esse post com uma enquete, e lhes perguntaria: O que é suástica, meus amigos?
Em seguida lhes perguntaria qual a sua reação caso eu exibisse uma em frente à minha casa, mais ou menos assim:


Posso até estar subestimando os conhecimentos de alguns de vocês, mas acredito que muitos iriam associar o símbolo única e exclusivamente ao nazismo, assim como eu fiz logo que vi a imagem acima na rua onde moro aqui na Índia. É claro que esse instintivo pensamento seguiu-se de uma certa desconfiança, já que conhecemos a terrível história à qual o símbolo remete e que o tornou abominável e é até proibido em alguns países. Além disso comecei a vê-lo com muita frequência, e as filosofias orientais, ao que eu saiba, não combinam em nada com  as do movimento Hitlerista. Não é?
Foi quando recebi um dos convites de casamento que já foi assunto aqui no blog. Abri e ali estava mais uma vez a tal da cruz. Aproveitei que o Paavan (quem tinha entregue o convite) ainda estava ali, e perguntei o que era aquele símbolo. Ele me respondeu com naturalidade que era uma suástica. E quando perguntei sobre o significado dela, ele disse que era “good fortune”. Pois é, pessoal... descobri que muito antes de ser um símbolo nazista, a suástica já acompanhava a cultura indiana desde longa data e significa boa sorte. Pesquisando um pouco mais, vejo que é um símbolo que está relacionado a bons auspícios e felicidade, e fez parte de várias culturas bem distintas em diferentes épocas.
Bem, nunca é tarde demais para se aprender. E espero que eu não seja a única pra quem essa informação é nova, senão essa postagem perderia todo o sentido hehe

E falando em aprender, aos pouquinhos estou me aventurando a aprender alguma coisa de Hindi e hoje descobri dois sites ótimos! Aqui vão os links pra quem possa estar interessado:


Ok, vou encerrando por hoje, mas mesmo depois desse post, tomem cuidado ao exibirem suásticas por aí hein! ;)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Namaste, amigos! O carnaval acabou e estou feliz porque o máximo que vi a respeito foram algumas notícias na internet. Dado importante sobre a Índia: aqui não tem carnaval! hehe

Bem, ultimamente tenho destacado as diferenças da cultura indiana em comparação à nossa, mas acho interessante falar também sobre as coisas familiares que encontramos aqui, para dar uma visão mais fiel do conjunto. Por exemplo, todos os dias pela manhã para fazer nosso desjejum, escolhemos entre uma variedade de cereais Kellogg's, acompanhado de leite Nestlé, sucos e frutas frescas. Uso sabonete Dove e lavo meus cabelos com xampu e condicionador Garnier Fructis. Cozinho arroz, frango, legumes, etc. Às vezes aos domingos assistimos a canais como Discovery e HBO, e se estivermos a fim de um aperitivo, temos pipoca, batata Lays, refrigerantes e chocolate (Snickers, Ferrero Rocher, Twix...). Se precisar de roupas ou calçados, há algumas lojas como Levi's e Adidas. E tudo isso aí mais barato que no Brasil.
Sim, todo esse parágrafo basicamente pra mostrar que os efeitos da globalização chegaram aqui na Índia!

Apesar disso, a riqueza desta cultura milenar não deixa faltar alimento para nossos espíritos curiosos, meus caros. E é por isso que vou tentar nutri-los com um pouco do que aconteceu nos últimos dias.

Na semana passada eu estava trabalhando no depósito de amostras na empresa quando me apareceu uma aranha entre as caixas. Fiquei sem saber como agir. Olhei para a Smita, nossa colega indiana e única pessoa que estava lá comigo. Perguntei se eles matavam as aranhas. Ela respondeu que não, como se a ideia fosse um tanto absurda, e acrescentou que nem sequer as cobras eles matam! Disse que se uma aparece em seu caminho, começam a orar, pedindo que se desvie. Comentou também que algumas pessoas chegam a colocar um pequeno recipiente com leite do lado de fora de suas casas para que as cobras venham beber (!!!)
Independentemente desse episódio, eu já estava começando a ficar bem preocupada com a quantidade de insetos em geral que iriam aparecer durante o verão, mas nos disseram que as temperaturas são tão altas que nem os bichos aparecem. Boa ou má notícia?!

Vamos esperar para ver. Por enquanto, a vida continua, e já estava na hora de nós debutarmos no turismo em Agra... Não se empolguem. Nada de Taj Mahal por enquanto. Começamos devagar conhecendo um ponto turístico em uma região bem próxima daqui chamada Sikandra. O monumento nada mais é do que um complexo que abriga a tumba de um antigo imperador - Akbar the Great. De acordo com a nossa útil Wikipedia, o próprio imperador começou a construção no ano de 1600. Ficou um pouco difícil obter informações no local, já que todos os escritos estavam em Hindi, com exceção dos preços e avisos pra não pisar no gramado. De qualquer forma, não faltou a foto:



Se é que tem alguém lendo o blog que não sejam meus parentes e amigos, esta sou eu, que esqueci de tirar uma foto do monumento :)


O público era uma mistura de indianos e turistas de todas as partes do mundo. Engraçado que os indianos nos olhavam bastante e um grupo de rapazes até pediu pra tirar uma foto com a gente.
Enfim, gostamos do passeio e pretendemos voltar mais vezes, já que a grande área ao redor acaba sendo agradável para uma caminhada e pra descansar os olhos da loucura das ruas.



E pra finalizar a postagem de hoje com um gostinho especial da Índia, apresento-lhes o rasgulla, mais um docinho trazido pelo nosso amigo Zafar Ali.

Sim, meus amigos... eu mais uma vez não recuei diante da ameaça. Meu comprometimento com o blog é tanto que encarei mais essa. E adivinhem, depois de experimentar comi mais dois porque acabei até gostando do petisco. Esse sim era bem doce, com uma massa branca leve açucarada e frita. Recorrendo mais uma vez à Wikipedia, vejo que é feito com uma espécie de queijo cottage e massa de semolina, mas não posso garantir que foi essa a receita usada pela esposa do Ali.

Aguardem por uma nova postagem em breve, tenho muito o que contar ainda!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Are you sure you're gonna eat that, sir?

Oi pessoal! Hoje resolvi falar um pouquinho sobre a alimentação por aqui, já que é uma coisa sobre a qual nossos conhecidos costumam perguntar.
A experiência gastronômica já começou forçadamente no avião, onde aliás começaram a oferecer sempre uma opção vegetariana e uma não-vegetariana nas refeições. Apesar de a companhia aérea ser alemã, no trecho com destino a Nova Delhi se esforçaram para agradar os indianos.
Comi uma pasta mole de cor verde escura com arroz e uma outra pasta vermelha e apimentada. Até agora não sei o que comi, com excessão do arroz, que aliás é muito bom aqui.

Engraçado notar que em outros países costuma-se deixar claro quando uma comida é vegetariana. Geralmente existe uma opção vegetariana entre cinquenta outras no cardápio. Já na Índia, rotula-se principalmente o que não é vegetariano. Mesmo quando se trata de uma marca internacional, como é o caso da Domino’s Pizza:
Reparem: os produtos vegetarianos em geral são marcados com um símbolo verde, já os "non veg" com o sinal vermelho, do tipo: Pare. Tem certeza?!

Aliás, a tal pizzaria é a única rede conhecida aqui por perto (ao menos que descobrimos até agora). Ela me deu a esperança de uma trégua com o fogão no fim de semana, mas a alegria não durou muito. Encomendamos uma, e como se não bastasse manter a característica de “pizza-gororoba” dos States, acrescentaram um gosto típico-Índia (leia-se: curry) na pizza. Bom, no mínimo vamos ter que escolher muito bem o sabor antes de pedir outra.

Desde então tenho fugido das comidas daqui. Sim, confesso. Nada aventureiro da minha parte. Mas tenho meus motivos. Não tenho muita frescura, mas aqui os (não) hábitos de higiene realmente assustam um pouco. Mas ainda assim não escapei completamente e até agora não foi tão mal. Quero dizer, exceto pela pizza.
O Ali, motorista da empresa, é muito legal. Vocês provavelmente vão ouvir falar bastante dele. Certo dia resolveu me fazer um agrado e trazer uma sobremesa, sabendo que eu gosto muito de doces. Eis a dita cuja:


Assim desse jeitinho que vocês estão vendo me foi entregue a iguaria, que eu agradeci tentando disfarçar a apreensão. Mas em nome da aventura, das novas experiências, e pensando em vocês, meus caros leitores, respirei fundo e “mandei ver”! No fim descobri que o pudim que aqui se chama kheer se assemelha muito ao nosso arroz doce, com a adição de algumas frutinhas típicas locais. Não é muito doce. Aliás, um brasileiro que já mora há muitos anos aqui disse que não encontra sobremesas doces assim como as nossas. Pra mim isso tem a ver com o equilíbrio cultivado nessa parte do mundo, em contraposição à nossa tendência “Super Size Me”, de sempre querer mais, mais e mais! Pode ser, ou não J
Bem, comida é um outro assunto que pode render muito, mas pra cumprir a promessa de manter postagens não tão longas, vou ficando por aqui. Até a próxima aventura.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Casamento

Não aquele que eu disse que ia :)
Pois é, pessoal... acabamos não indo ao casamento que eu tinha mencionado no post anterior. Nos disseram que ia ser num vilarejo bem afastado e que iríamos parecer uns E.T.s lá no meio da indianada que não está acostumada a ver gente de fora. Isso sem mencionar que a disposição geral da turma não estava pra festa. No fim, o pessoal que foi disse que não tínhamos perdido muita coisa.

Desde então fiquei pensando em como recompensá-los e não causar uma decepção em quem estava esperando novidades. A tarefa ficou difícil depois de termos passado praticamente o domingo todo em casa assistindo TV. Mas qual foi a nossa surpresa ao chegarmos às 20h em casa em plena segunda-feira depois de um dia cansativo de trabalho e encontrarmos o condomínio todo enfeitado, tomado por luzes e pessoas vestidas com coloridas e elegantes roupas de festa. Logo percebemos que se tratava de um casamento, e dos grandes! Fomos dar uma volta e cada vez mais nos surpreendíamos com  a grandiosidade do evento. Toda a área de lazer do condomínio (do tamanho de um campo de futebol ou maior), incluindo uma espécie de capela que há ali, estava isolada por um grande tecido. Na entrada, arcos iluminados; e em todo o caminho que levava até lá, pequenas e inúmeras luzes coloridas pendiam das casas e revestiam as árvores.
Pelo pouco que conseguíamos enxergar para dentro do tecido, havia um grande palco, também muito decorado, e peças típicas que pareciam de prata.
Logo começou uma queima de fogos de artifício que durou uns cinco minutos. Fomos ver do terraço e avistamos uma movimentação vinda da rua em direção ao condomínio. Era digna do carnaval no Brasil, com carro alegórico, fantasia e até bateria e samba. Depois eu soube que a tradição é que o noivo venha de sua casa até o local do casamento, montado num cavalo branco, rodeado por um grande festejo.
É claro que vocês devem estar curiosos para ver como é, e claro que pensei em vocês, caros leitores:



Aí está o noivo, que não estava com uma cara muito animada e só deu um sorrisinho quando percebeu que estávamos fotografando. Entendo ele, afinal além de todo o ritual se estender por vários dias, os votos religiosos duram por volta de oito ou nove horas. Isso sem contar que depois de toda a espera, ele ainda não leva a noiva pra casa!
E pra ser bem contrário às tradições ocidentais, a noiva é quem espera no local.

E pra completar o clima de romance, hoje é Valentine's Day aqui na Índia. Mas sejam cuidadosos ao comemorar: casais de noivos não podem sair sozinhos à noite ;)

Happy Valentine's Day, my friends!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Oi pessoal. Os comentários que tenho recebido me encorajaram e deixaram super animada pra continuar o blog. Nossa, tem tantos assuntos que eu quero abordar aqui! Mas vou tentar ir com calma e manter postagens curtas e mais dinâmicas, isso porque quero facilitar pra que possam continuar acompanhando.
Por enquanto, agradeço a todos e espero retribuir com textos bem interessantes.
Bom, o assunto dos animais ainda vai render material pra muitas páginas, mas esta semana pede que falemos de casamento.
Ficamos sabendo que a maioria dos casamentos indianos se concentra nos meses de janeiro e fevereiro. E acabamos confirmando isso porque com bastante frequência vemos um quando estamos passando na rua. (Sim, na rua. Com banda, endumentárias, cavalo e tudo mais.) Além de que recebemos dois convites pra mesma data. Aliás, super bonitos:



Um deles recebemos de um rapaz que é funcionário novo aqui na empresa. O casamento é do irmão dele. Achamos um pouco estranho, afinal nem conhecemos o noivo, mas aparentemente aqui é normal. As festas de casamento são grandes celebrações e duram alguns dias. Por isso nosso colega pediu para se ausentar do trabalho por sete dias (?!). Imaginem quando ele mesmo for se casar!

Já o outro noivo trabalha em uma das fábricas com que fazemos negócios. Este sim é conhecido do pessoal aqui e por isso optaram por ir ao casamento dele. Eu que geralmente não sou animada pra festas, fiquei curiosa pra ver como tudo acontece. Pensei até em entrar no clima e vestir um "saree", mas aqui tá frio... vou ver se tem um de inverno.
A tradição do presente é bem parecida com a do Brasil. O pessoal do escritório pensou em dar um forno de microondas, mas há um pequeno empecilho: a vila onde o casal mora não tem energia elétrica. Ao que parece muitas pessoas ainda vivem assim aqui, e sem falar em saneamento básico. Mas isso também vai ser assunto pra outros dias.
Por enquanto conseguimos ver que casamento arranjado ainda é super comum por aqui, e ficamos sabendo que os noivos somente vão morar juntos três meses após a cerimônia. Vamos ver o que mais a gente descobre...
Até a casamento!
शुक्रिया ou Sukriyá = Obrigada! :)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Uma observação importante: Estou morando no norte da Índia, mais especificamente na cidade de Agra, e minhas publicações dizem respeito a essa região. Não posso fazer generalizações sobre o país todo.  Procurarei mencionar sempre que estiver falando sobre outra cidade.

Prosseguindo e complementando a postagem anterior...
Não são apenas as vacas que marcam presença constante nas ruas. Há também outros animais, como por exemplo búfalos, nossos conhecidos cachorros e os macacos:


Cabe contar aqui uma pequena história que ilustra a relação dos indianos com os animais: Meu marido contou que estava certo dia tentando gentilmente expulsar uma lagartixa do escritório. Foi dando pequenos chutinhos nela até que chegou à porta. Lá estava o motorista que entrou em defesa do pequeno rastejante. Disse pra que ele não a chutasse assim, que ela era um animal pequeno e ele era grande.
Isso me diz um pouco sobre o respeito que têm por toda criatura, coisa que falta em muitos brasileiros.

Não adianta ficarmos horrorizados. Esses dias, olhando fotos de uma Norte Americana em visita ao Brasil, descobri que a Índia está para nós assim como o Brasil está para os Norte Americanos ou Europeus. Sim, bagunça, sujeira, falta de ordem: nós também temos a nossa porção.

Ah! Outra coisa que temos em comum com os indianos... No condomínio onde eu moro também passa um carinha apitando de madrugada, assim como acontece no Brasil. Ah, nada como nos sentirmos seguros! Fico feliz quando acordo no meio da noite com o bendito apito e penso... Ufa! Se sofrermos um ataque, tem um carinha com um apito ali fora pra me defender :) That's all for now, folks! See you again next monkey.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Incredible India!

Olá! Esta é a minha segunda tentativa de começar o blog. Acho que a primeira não deu muito certo porque eu estava tentando agradar a vários públicos diferentes. Agora decidi seguir a sugestão de meu amigo David Peterson, já mais experiente em blogs, e escrever as memórias como uma recordação pessoal. Me arrependo de no passado não ter registrado as experiências de um ano e meio vivendo nos E.U.A., e agora consideraria um desperdício deixar de cultivar memórias deste país tão interessante que é a Índia. Além disso, percebo uma curiosidade e interesse crescentes por parte dos brasileiros em saber mais sobre a rica cultura conservada aqui no oriente. Sinto-me, portanto, quase na obrigação de prestar esse serviço público e compartilhar informações e minhas impressões com aqueles que estiverem interessados. 
Digo que a Índia é interessante por falta de um adjetivo melhor no momento. Não sei se é apenas efeito dos olhos curiosos de quem chegou aqui há apenas uma semana, mas estou achando tudo isso fantástico! É, fantástico ainda não é o adjetivo perfeito, mas quem sabe durante nossa trajetória vocês poderão me ajudar a encontrar a palavra certa... por enquanto, fico com a definição que os próprios locais difundem aqui: Incredible India!
Aguardem a seguir postagens sobre diversos e bem variados aspectos da cultura indiana. Por enquanto, fiquem com a imagem que confirma um fato muito difundido sobre a índia: Sim, há vacas por todos os lugares. Já quanto a serem sagradas, deixo o assunto pra uma próxima discussão. Até mais!